mai
23
2014

Mística de Umbanda

Entendo que a Umbanda já é mística por natureza, por isso não usaria o termo “Umbanda Mística” e sim “Mística de Umbanda”, o que são apenas algumas considerações sobre a mística na Religião de Umbanda. A maioria das religiões têm uma vertente mística (Mística Sufi para o Islã, Mística Cabalá para Judaísmo, Mística Cristã para Catolicismo, Mística Vedanta para o Hinduismo, Mística Zen para o Budismo e etc.), outras são místicas por natureza como o Taoísmo, na Umbanda tanto a Mística quanto a Magia caminham lado a lado com a liturgia e o ritual, onde cada um dos adeptos alcança maior ou menor grau em sua prática.

O Místico é aquele que busca a união com o Todo, aquele que busca integrar-se ao Todo, aquele que abre mão de si mesmo para que o Todo se manifeste, na experiência mística. E assim também pode ser entendido por exemplo a mística da incorporação onde abrimos mão de nós mesmos para que uma outra consciência se manifeste. No caso da incorporação de Orixá abrimos mão de ser a parte para nos integrarmos a um mistério maior totalmente integrado ao Todo.

Compartilhar sentimentos, virtudes e qualidades com aqueles que já alcançaram uma realidade maior é no mínimo experimentar “O Vinho do Místico”, experimentar a sagrada loucura de viver o que pode ser sentido, mas pouco pode ser explicado.

Assim como podemos descrever uma cachoeira fisicamente e nossas sensações diante de tal esplendor, no entanto nos faltam palavras para uma real explicação das sensações. Só quem esteve em uma cachoeira pode entender o que é sentido diante da mesma, mesmo porque cada um sente diferente assim como cachoeiras também são diferentes. Há, inclusive, pessoas capazes de ir a uma cachoeira e ver apenas os mosquitos, lhe incomodando, a água fria que desencoraja o mergulhar ou o frio da mesma brisa, que para outros, é a voz do canto e encanto de Oxum.

Mística é sentir que nós, Oxum, a cachoeira e Deus somos apenas UM, místico é o que deixando a BANDA de lado se une no UM da UMBANDA, o UM que é o TODO o UM que é TUDO.

Místico é aquele que ama a Deus e aos Orixás com o AMOR dos apaixonados, um amor que não se explica, um amor que está além das palavras, um amor que cala a alma, como a “Voz do Silêncio” de Blavatsk.

Aurélio Buarque de Holanda dá 5 definições para místico e eu fico apenas com a quinta que melhor traduz a essência deste texto:

“5. Aquele que, mediante a contemplação espiritual, procura atingir o estado estático de união direta com a divindade.”

Jostein Gaarder, Victor Hellern e Henry Notaker, no “O Livro das Religiões”, definem:

“A experiência mística pode ser caracterizada, resumidamente, como uma sensação direta de ser um só com Deus ou com o espírito do universo. Apesar de a oração e o sacrifício implicarem uma grande distância entre Deus e o homem – ou entre Deus e o Mundo -, o místico tenta transpor este abismo. Em outras palavras: o místico não sente a existência desse abismo. Ele é ‘absorvido’ em Deus, ‘se perde’ em Deus, ou ‘desaparece’ em Deus…(Um místico indiano disse certa vez: ‘ quando eu existia, não existia Deus – agora Deus existe, e eu não existo mais’. Ele ‘se perdeu’ em Deus).”

Segundo Faustino Teixeira, no livro “No Limiar do Mistério: Mística e Religião”:

“Na raiz grega do termo ‘mística’ (mystikós) encontra-se o verbo myein , que significa ‘fechar os lábios e os olhos’. O místico é alguém familiarizado com a visão interior, que ultrapassa a consciência ordinária, ele vive a radicalidade da presença de algo absolutamente novo e gratuito; vive uma experiência que toca a dimensão profunda e escondida da realidade.”

A relação do místico com Deus está além da servidão, do medo ou da obrigação, o místico é um encantado pelo Amor Divino. Para ele ou ela, qualquer que seja a sua religião, a mesma se tornará única e exclusivamente a Religião do Amor, como dizia o Místico Sufi Rumi, criador da ordem dos dervixes dançantes ou girantes.

No entanto a mística se fundamenta em prática e não somente em teorias, o próprio Rumi costumava dizer:

“Se esse conhecimento pudesse ser obtido simplesmente pelo que dizem outros homens, não seria necessário entregar-se a tanto trabalho e esforço, e ninguém se sacrificaria tanto nessa busca. Alguém vai a beira do mar e só vê água salgada, tubarões e peixes. Ele diz: ‘Onde está essa pérola de que falam?

Talvez não haja pérola alguma’. Como seria possível obter pérola simplesmente olhando o mar? Mesmo que tivesse de esvaziar o mar cem mil vezes com uma taça, a pérola jamais seria encontrada. É preciso mergulhar para encontrá-la.”

Todo Místico terá um olhar diferenciado para a religião, Dionísio o Areopagita, deixou escrito um dos mais célebres textos da Mística Cristã, onde coloca a sua oração à Deus desta forma:

“Ó vós, trindade além do ser, conduzi-nos à altura da revelação mística, sublime além de todo pensamento e luz; onde os mistérios simples, absolutos e imutáveis da divina verdade estão escondidos, na translúcida escuridão daquele silêncio que se revela em segredo. Pois esta escuridão, embora da mais profunda obscuridade, é, contudo, radiantemente clara e, embora além do toque e da visão, ela transborda nossas mentes invisíveis com esplendores de transcendente beleza. Esta é minha oração. Quanto a ti, amado Timóteo, empenhando -te sinceramente na contemplação mística, abandona os sentidos, os trabalhos do intelecto, e tudo o que possa ser sentido e sabido, e tudo o que não é e é. Pois, desse modo, tu podes alcançar ignorando, até o ponto que é possível, a unidade daquele que está além de todo ser e conhecimento.”

E sobre este texto, no livro “Teologia Mística”, Osho, também um Místico, Filósofo, Poeta e Teólogo Hindú comenta:

“Dionísio é um dos maiores budas de todos os tempos. E quando acontece de um erudito oriental, por acaso, por acaso absoluto, encontrar-se com uma pessoa como Dionísio ele começa a pensar que este deve ter ‘tomado emprestado’ do Oriente. Esta parece ser uma presunção tácita: que o oriente tem algum monopólio sobre o espiritualismo. Ninguém tem nenhum monopólio. Oriente e Ocidente não podem fazer qualquer diferença no crescimento espiritual do homem. Jesus pôde tornar-se um buda em Jerusalém, Lao Tzu pôde tornar-se um buda na China; Dionísio pôde tornar-se um buda em Atenas. Não há nenhuma necessidade de se tomat nada emprestado de ninguém.”

Seguindo a linha de raciocínio e pensamento de Osho, também temos a oportunidade de nos tornarmos um Buda na Umbanda. Alcançarmos a iluminação em qualquer lugar que seja, termos a experiência mística.

E lendo estas linhas podemos ver muito de Umbanda em cada uma delas no entanto é certo que cada um se relaciona de forma diferente com Deus e os Orixás e Guias da Umbanda. Que estas linhas venham ao encontro dos corações que têm na Umbanda a sua Religião do Amor e em Deus a manifestação deste Amor através dos Orixás e Guias. “Chamar Deus de Mãe é um ideal mais elevado do que chamá-lO de Pai e chamá-lO de amigo é ainda mais elevado, mas o mais elevado é chamá-lO como amado.”

√ POR ALEXANDRE CUMINO

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Sobre o autor: Umbanda No Peito

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