jun
14
2013

O que comemorar no dia 13 de Maio ?

“Por mais que se diga ou se faça para comemorar e/ou homenagear os Pretos-Velhos que foram escravizados para atender interesses daqueles que sempre se julgaram acima de tudo e de todos, desde os primeiros tempos até os dias de hoje, datas como estas nos convidam a reflexões realistas e conscientes sobre essas mesmas comemorações.

Nenhum ato ou palavra será suficiente para apagar todo o mal que foi feito a esse povo e às consequências que isso desencadeou.  Mais de 100 anos não foram suficientes para que os países escravocratas pudessem acertar as contas com seu negro passado.

Muitas negras criaram os filhos das brancas, enquanto não sabiam o destino de seus filhos.  Fizeram isso com muita dedicação e amor, como pode se comprovar em pesquisas, relatos, filmes e até mesmo nas novelas, oferecendo seu peito cheio de leite a esses bebês e apegando-se a eles.

Das savanas africanas, moço, forte, livre, num instante transformado em escravo acorrentado, nenhuma oportunidade eu tive.  Uma revolta crescente me envolvia intensamente, por que algo me dizia, que nunca mais eu veria minha Aruanda de então, não ouviria a passarada, o bramir dos elefantes, o rugido do leão.  Minha raça de gigantes que tanto orgulho tivera, jazia despedaçada, nua, fria, acorrentada num infecto porão.

Um ódio intenso o meu peito atormentava, por que OIÁ não mandava uma grande tempestade?  Que XANGÔ com seus raios partisse aquela nave amaldiçoada, que matasse aquela gente, que tão cruel se mostrara, que até minha pobre mãezinha, tão frágil, já tão velhinha, por maldade acorrentara.  E IEMANJÁ, onde estava que nossa desgraça não via, que nossa dor não sentia?  O seu peito não sangrava?  Seus ouvidos não ouviam a súplica que eu lhe fazia?  Se IEMANJÁ ordenasse, o mar se abriria; as ondas nos envolveriam; ao meu povo ela daria a desejada esperança, e aos que nos escravizavam, a necessária vingança.

Porém nada aconteceu, minha mãezinha não resistiu e morreu.  Seu corpo ao mar foi lançado.  O meu povo amedrontado, no mercado foi vendido, uns pra cá, outros pra lá e, como gado, com ferro em brasa marcado.

Onde é que estava OGUM?  Que aquela gente não vencia?  Onde estavam as suas armas, as suas lanças de guerra? Porém, nada acontecia, e a toda parte que olhava, somente uma coisa via… terra.  Terra que sempre exigia mais de nossos corpos suados, de nossos corpos cansados.

Era a senzala, era o tronco, o gato de sete rabos que nos arrancava o couro, era a lida, era a colheita (que para nós era estafa, para o senhor era o ouro).

Quantas vezes, depois que o sol se escondia, lá no fundo da senzala, com os mais velhos aprendia, que o nosso destino no fim não seria sempre assim.  Quantas vezes me disseram que ZAMBI olhava por mim.

Bem me lembro uma manhã, que o rancor era grande, vi sair da casa grande, a filha do meu patrão.  Ingênua, desprotegida, meu pensamento voou: eis a hora da vingança, vou matar essa criança, vou vingar minha gente e, se por isso morrer, sei que vou morrer contente.

E a pequena caminhava alegre, despreocupada.  Vinha em minha direção.  Como a fera aguarda a caça, eu esperava ansioso, minha hora era chegada.  Eu trazia as mãos suadas, nesse momento odioso, meu coração disparava.  Vi o tronco; vi o chicote; vi meu povo sofrendo, apodrecendo, morrendo e, nada mais vi então.

Correndo como um possesso, agarrei-a por um braço e levantei-a do chão.

Porém, para minha surpresa, mal eu ergui a menina, uma serpente ferina, como se fora o próprio vento, fere o espaço, errando por minha causa; o seu bote foi tão fatal; tudo ocorreu tão de repente; tudo foi de forma tal, que ali parado eu ficara, olhando para a serpente que sumia no matagal.

Depois, com a criança em meus braços, olhei meus punhos de aço que a deveriam matar…  Olhei seus lindos olhinhos que insistiam em me fitar.  Fez-me um gesto de carinho, eu estava emocionado, não sabia o que falar, não sabia o que pensar.

Meus pensamentos estavam numa grande confusão, vi a corrente, o tronco, as minhas mãos que vingavam, vi o chicote, a serpente errando o bote…  Senti um aperto no coração.  As minhas mãos calejadas pelo machado, pela enxada.  Minhas mãos não matariam, não haveria vingança, pois meu Deus não permitira que morresse essa criança.

Assim, o tempo passou, de rapaz forte de antes, bem pouca coisa restou, até que um dia chegou e Benedito acabou… Mas, do outro lado da morte eu encontrei nova vida, mais longa, muito mais forte, mais de amor e de perdão.  Os sofrimentos de outrora já não importam agora, porque nada foi em vão…

Fomos mártires nessa vida, desta Umbanda tão querida, religião do coração, da paz, do amor, do perdão”

√ POR PAI RONALDO LINARES

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