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17
2013

O Valor da Narrativa Mítica Afro-Brasileira para os Filhos de Umbanda

“(…) A teologia narrativa procura se aproximar da fala dos sujeitos e da narratividade da fé que se dá nos grupos e nos diferentes estratos da cultura e da sociedade. (…) Fazer teologia narrativa é incluir as narrativas das comunidades, é estar disposto a fazer uma teologia no campo religioso, muito mais do que desenvolver mais uma teologia doutrinária (…).”

Prof. Dr. Antonio Carlos de Melo Magalhães. Uma Igreja com Teologia.

Qualquer um que tenha visitado as nossas Casas de Santo sabe que na Umbanda; Profissão de Fé que, preservando grandemente as matrizes africanas, originou-se em contexto sócio-cultural diversos das demais manifestações do Povo de Santo, não prescindimos da narrativa para transmitir o conhecimento da Lei Divina que Cura.

A transmissão oral destas narrativas, é certo, vem sendo substituída a passos largos pelo acesso digital à informação, o que certamente é Providencial para a confraternização de todos os povos, e que tem seu impacto no saber comunitário no seio da Umbanda.f

Obviamente, não podemos negar, trata-se de um fenômeno natural, aliás, grande aliado na difusão de nossos conhecimentos religiosos e magísticos. Por meio dele temos recebido grandes registros espirituais e doutrinários, como por exemplo, as obras de Mestre Arapiaga e de Pai Rubens Saraceni.

Contudo, se a difusão doutrinária e o acesso à informação fazem parte da evolução histórica do processo religioso, devemos-nos por em guarda da normatização intransigente da Umbanda. Noutras palavras, não podemos perder, como analisa o Prof. Antonio, um dos grandes nomes da Teologia brasileira, “as narrativas das comunidades”, ou seja, as experiências que cada Terreiro, Tenda, Casa e Centro possui e produz, negando-as por não fazerem parte do nosso repertório ortodoxo de fé.

Algo similar ocorreu junto à Codificação Espírita Kardecista. A Espiritualidade Superior, percebendo que as comunidades espíritas negligenciavam cegamente as suas experiências de fé, produziram através de médiuns como Francisco Cândido Xavier, Waldo Vieira, Yvonne Pereira, obras que, inicialmente criticadas e rechaçadas pela opinião ortodoxa, configuraram avanço luminoso no pensamento espiritualista. Desta forma, o saber comunitário, mesmo que não transmitido de forma oral, valorizando o trabalho de cada filho de fé mostrou a necessidade de antepor à Letra morta e exclusiva, o Espírito vivificante e plural.

Talvez, neste ponto, muitos se questionem: mas, afinal, qual o problema objetivo em criarmos um corpo doutrinário ortodoxo e normativo para a Umbanda? Isto não lhe aumentaria a força e a penetração, fazendo-a uma Instituição Religiosa como diversas Igrejas e Templos de que temos notícia? A resposta é um categórico não!

O Caboclo Sete Encruzilhadas afirmou a Zélio de Moraes que a Umbanda seria um caminho respeitoso aos diversos processos evolutivos por que passam os espíritos filho de Olorum, acolhendo-os em suas diversas faixas de compreensão da vida. Com isto, não seria uma religião hermeticamente ocluída, pois deveria acompanhar os passos destas almas na jornada rumo ao Alto.

Quando compartimentalizamos a fé e criamos restrições invencíveis: isto é permitido, isto não, isto é pecado, isto é justo, criando corpos literários dogmáticos que os justifiquem, impedimos que nosso pensamento religioso cresça, evolua e responda às necessidades atuais dos espíritos em evolução. A Umbanda de 1908 não é a Umbanda de 2013 e não será a Umbanda de 2014, pois a cada etapa as demandas espirituais se alteram, os filhos de Deus se transformam e novos questionamentos surgem.

Esta é a beleza de um Credo que não se auto-limita, mas que dialoga em suas comunidades. Esta é a beleza de uma Teologia Narrativa, que permite, como diria Mãe Stella de Odé, grande sacerdotisa Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, “que a corrente sagrada que une o Òrun (Céu) ao Àiyé (Terra) não perca nenhum de seus elos, pois só assim a comunicação entre o humano e o divino não será perdida.”

Àbá aos irmãos!

Paz e bem de Oxalá!

√ POR STEPHAN SPERLING

Nasci em lar Espírita que partilhava a visão Kardecista de espiritualidade. Estagiei em outras confissões religiosas, mas encontrei na Umbanda um acolhimento sincero e amoroso para nossas lutas e evolução. Abiã em uma Casa paulistana, tenho em Oxum não apenas meu Ori, mas verdadeiramente a forma de compreender a existência: uma oportunidade rica para produzir, através da bondade, o melhor a mim mesmo e ao meu semelhante.

Curso o último ano de Medicina.

De demais convicções sou um Geamscista (Antonio Gramsci, teórico e ativista italiano anárquico-sindicalista), um feminista e um defensor dos direitos homoafetivos irremediável.

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Sobre o autor: Umbanda No Peito

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